Na Roma antiga anterior ao império, o casamento era uma coisa estritamente privada; mas era também considerado um dever cívico, e por isso não era apenas um direito negativo como se está a transformar entre nós.
Antes do século II d.C., o casamento não era formalmente reconhecido pela política senão em caso de divórcio, de reconhecimento de filiação ou de partilhas e de heranças. A cerimónia do casamento era realizada em casa e na presença de convidados mais íntimos que eram as testemunhas; não havia contrato de casamento nem papéis assinados que selassem o contrato. Nunca passou pela cabeça do romano que o casamento não fosse entre um homem e uma mulher, não obstante existissem homossexuais e orgias “gays” como existem hoje.
Os processos de divórcio e de heranças eram baseados nas testemunhas do casamento; eram estas que confirmavam no tribunais que determinado homem e determinada mulher eram, de facto, casados, porque tinham sido testemunhas oculares da cerimónia nupcial privada.
Uma mulher romana podia divorciar-se quando quisesse — as divorciadas levam consigo o seu dote, embora os filhos ficassem sempre com o pai —, o que gerou situações que hoje consideramos caricatas: ser cornudo não era considerado uma vergonha, porque a mulher era considerada como estando ao nível do estatuto dos filhos ou dos servos domésticos.
Se uma mulher era infiel, isso não era considerado ridículo, mas antes era considerado uma infelicidade, equiparada a uma gravidez de uma filha adolescente, ou à infelicidade da falta ao dever por parte de um escravo. Por isso, no caso de infidelidade da mulher, o homem romano era o primeiro a anunciar publicamente a “catástrofe”: o imperador Augusto descreveu detalhadamente, num édito, as “cambalhotas” da sua filha Júlia; o imperador Nero fez exactamente a mesma coisa em relação às “cambalhotas” da sua mulher Octávia — para confirmarem que não tinham "paciência" para aturar comportamentos viciosos. E o cidadão anónimo questionava-se se deveria admirar ou censurar o silêncio estóico de outros maridos...
A partir do século I e principalmente do século II d.C., com a consolidação do império e com a influência estóica na cultura romana, a “moral do dever cívico” aplicado ao casamento deu lugar a uma “moral do casal” — o estoicismo pregou largamente a nova “moral do casal”.
A “moral do dever cívico” dizia: “casar é um dever do cidadão”; a nova “moral do casal” dizia: “Se se quer ser um homem de bem é necessário fazer amor para ter filhos; o casamento não serve para prazeres venéreos”. Na nova “moral do casal”, a mulher passou a ser uma companheira para toda a vida e uma amiga do “pai de família” romano. Em ambas as morais, o casamento romano foi sempre monogâmico [as concubinas deles e os amantes delas não eram consideradas esposas e maridos].
Na Idade Média e com o primado do Cristianismo, o casamento privado romano passou a ser reconhecido pela Igreja Católica em uma cerimónia religiosa paralela à cerimónia privada em casa dos nubentes; mas o casamento continuou ser uma "coisa privada". Só com os teóricos da Razão de Estado, a partir de finais da Idade Média, é que passou a existir o contrato de casamento conforme existe hoje.

Hoje, os libertários de direita [Partido Social Democrata, e agora o CDS/PP] dizem que devemos voltar à concepção de casamento monogâmico e natural romano, como instituição puramente privada; e os libertários de esquerda [Partido Socialista e Bloco de Esquerda, que de “libertários” têm muito pouco] pretendem estender o contrato de casamento aos pares de homossexuais, e defendem mesmo o contrato de casamento poliamórico e/ou polígamo e a adopção de crianças por pares de homossexuais.
Os primeiros colocam em causa a "excessiva" intervenção do Estado no casamento, e os segundos pretendem um reforço da influência do Estado na vida privada dos cidadãos e na instituição do casamento.
Casamento romano
A posição dos conservadores é a de que, sendo que o Estado é hoje uma realidade inquestionável, não pode ser retirado da problemática do casamento. O direito romano da república [antes do império] tinha imensas dificuldades em lidar com o estatuto das crianças nascidas no casamento estritamente privado; e por isso, hoje é o Estado que tem que prover pelos direitos das crianças que são a parte mais fraca em caso de litígio e de divórcio.
Por outro lado, os conservadores pensam que o casamento é uma instituição que se caracteriza pela aliança entre o homem e a mulher com a sucessão das gerações — sendo que “instituição”, neste contexto, é uma forma de vida que a sociedade dá a si mesma para assegurar a sua perenidade.